Durante décadas, a trilha sonora foi um dos pilares fundamentais das novelas brasileiras. Muito mais do que um elemento de fundo, as músicas ajudavam a contar a história, definir personagens, marcar épocas e criar uma conexão emocional profunda com o público. No entanto, nos últimos anos, esse papel vem passando por uma mudança brusca e perceptível, levantando questionamentos sobre os rumos da dramaturgia televisiva.
Opino com muita certeza de que a música é uma extensão do roteiro. Um acabamento que dá o tom exato na cena. Há anos canções-tema de personagens, casais ou vilões funcionavam como atalhos emocionais: bastavam alguns acordes para o telespectador identificar sentimentos, conflitos ou reviravoltas.
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Além disso, trilhas bem-curadas ajudavam a lançar artistas, impulsionar vendas de discos e até definir a identidade cultural de uma geração. Eu até já falei sobre esse tema, porém com outro contexto.
Voltando ao assunto a música também tinha um papel sensorial poderoso. Ela preenchia silêncios, intensificava cenas dramáticas e criava memórias afetivas duradouras. Muitas novelas são lembradas até hoje tanto por suas histórias quanto por suas trilhas sonoras icônicas.
Atualmente, se observa uma redução significativa no uso de trilhas cantadas e temas marcantes. Em seu lugar, surgem trilhas instrumentais mais discretas ou até longos trechos sem música. Essa mudança não é aleatória e pode ser explicada por diversos fatores.
Acredito que infelizmente a qualidade das músicas nacionais declinou, estava escutando alguns cantores e cantoras contemporâneos, que até cantam bem, porém as letras das músicas são preenchidas com palavrões, impossível citá-los aqui, de tão pesados.
Outra questão, uma das principais é a busca por maior realismo. A dramaturgia contemporânea tenta se aproximar da linguagem das séries e do cinema, onde o uso excessivo de música é evitado para não guiar emocionalmente o espectador de forma explícita.
O silêncio, nesse contexto, passa a ser uma ferramenta narrativa, eu ressalto a técnica de cada produto, ou seja série tem um ritmo, filme outro ritmo, é ação o tempo todo, independente do gênero, mas novela é melodrama, muitas vezes ultrapassando cem capítulos, sendo assim a música poderia nostalgiar mais o folhetim.
Novelas e os direitos autorais
Outro fator importante é o custo e a burocracia dos direitos autorais. Licenciar músicas conhecidas tornou-se mais caro e complexo, especialmente em um cenário de múltiplas plataformas, como streaming e distribuição internacional. É mais barato criar trilha instrumental por IA.
Há também uma mudança no comportamento do público. Com audiências fragmentadas e hábitos de consumo mais rápidos, as emissoras passaram a apostar menos em trilhas que dialoguem com o mercado fonográfico e mais em uma estética sonora funcional, que não roube a atenção da narrativa.
Embora a nova abordagem traga sofisticação e realismo, muitos telespectadores sentem falta do impacto emocional que as trilhas sonoras proporcionavam.
A ausência de músicas marcantes pode tornar a experiência mais fria e reduzir a capacidade da novela de criar vínculos afetivos duradouros. Imagine uma cena de amor sem música, na novela, é claro.

No meu ponto de vista a trilha sonora sempre foi uma ponte entre a ficção e a vida real. Sua diminuição representa não apenas uma mudança estética e também cultural, afetando a forma como o público se relaciona com as histórias e como essas histórias permanecem na memória coletiva.
Meus roteiros eu sempre os escrevo escutando música, assim como Gilberto Braga fazia. A brusca mudança no uso da trilha sonora reflete transformações mais amplas na indústria audiovisual.
Ainda assim, o desafio permanece: encontrar o equilíbrio entre inovação e emoção. Afinal, a música continua sendo uma das formas mais poderosas de contar histórias, e seu silêncio, quando excessivo, descolore a vida e a ficção, afinal uma imita a outra.
Fonte Na telinha