A forma de escrever novelas vem passando por transformações para acompanhar um público mais conectado e exigente. Narrativas mais ágeis, personagens complexos e temas contemporâneos mostram um esforço de modernização necessário ao gênero.
No entanto, inovar não significa abandonar a clássica receita que consagrou a novela no mundo todo: conflitos fortes, emoção, ganchos no fim dos capítulos e personagens que despertam identificação. No meu ponto de vista e experiência esses elementos continuam sendo o coração da narrativa.
O desafio está justamente no equilíbrio. Ao atualizar a linguagem e os temas sem romper com sua essência melodramática, a novela prova que pode evoluir sem perder sua identidade, mantendo vivo um formato que ainda ocupa lugar central na cultura brasileira.
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E mesmo com a mudança em que defasou os números da audiência, ainda é o produto de entretenimento mais consumido na TV aberta.
Conversei com um autor dessa nova geração da Globo, Júlio Fischer, com uma vasta experiência, ele comentou essas mudanças e ainda nos conta um pouco sobre a nova novela das seis, com coautoria de Duca Rachid e Elísio Lopes Jr..
Júlio relembra como tudo começou, afinal escrever é mais que uma paixão, é um amor inexplicável:
“A paixão pela dramaturgia vem desde criança. Comecei no teatro, escrevendo peças infantis, algumas, como ‘ A Canção de Assis’, de grande sucesso e que está sempre sendo encenada em algum canto do Brasil até hoje. Essa paixão me levou a fazer pós-graduação em História do Teatro na USP, onde, como orientando da grande crítica e ensaista Barbara Heliodora, mergulhei de cabeça no estudo dos clássicos do palco, especialmente Shakespeare e os gregos”.
Júlio Fischer – Autor de novelas
Em coautoria com Duca Rachid e Elísio Lopes Jr., ele escreveu Amor Perfeito (2023), que foi um grande sucesso no horário das seis, mas antes teve uma longa trajetória.
“A televisão aconteceu na minha vida depois da pós na USP. Eu tinha um desejo enorme de escrever para o veículo, mas zero experiência na área, além de ser, na época, um meio em que era difícil de entrar”, iniciou Fischer.
“Até que um dia vi um anúncio no jornal de que a TV Globo estava abrindo um concurso público para escolher talentos para participar de uma oficina de roteiristas ministrada pelo Flávio de Campos. O teste consistia na escrita de um roteiro de TV baseado num conto de Machado de Assis, roteiro esse que seria avaliado por uma banca. Tive a felicidade de ser selecionado, junto com outros 12 candidatos, para essa oficina, que adotava um processo de eliminação ao longo da jornada, para terminar com dois ou três oficineiros que seriam contratados pela emissora”.
Júlio Fischer – Autor de novelas
“A oficina foi das experiências mais ricas (e desafiadoras!) que já tive na vida. Ser aluno de Flávio de Campos, profundo conhecedor de dramaturgia (não somente televisiva) e da psique humana, foi transformador. Sou e serei sempre devedor do Flávio, que enxergou meu potencial e me incentivou com a garra de um treinador de futebol, o que resultou, ao final da oficina, na minha contratação”, contou Júlio Fischer.

Júlio Fischer e Walter Negrão
Após esse fato, ele teve parcerias com veteranos, aumentando assim sua bagagem dramaturga e revela: “Numa das aulas da oficina, Flávio convidou Walther Negrão para dar uma aula magna”.
E continuou: “Para essa aula, Negrão pediu que os alunos preparassem uma pequena sinopse de novela. Parece que a minha agradou, porque, quando fui contratado no final, o Negrão me chamou para fazer parte do time de colaboradores da novela “Era uma vez…”, ao lado de Elizabeth Jhin e Marcia Prates (duas feras também, com quem aprendi muito nesse começo)”.
“Negrão foi um pai na teledramaturgia para mim. Depois da primeira, participei de várias outras novelas como seu colaborador, sempre buscando absorver o máximo desse gigante que conhece tudo de televisão e, que, como se não bastasse, é uma pessoa deliciosa, ser humano vibrante, divertido e generoso como poucos. É outro com quem tenho uma dívida impagável”.
Júlio Fischer – Autor de novelas
Júlio Fischer daí pra frente exercer seu dom, afinal ser Escritor é um dom dado ao nascer para que ao se profissionalizar, o autor, roteirista possa levar através do seu trabalho uma mensagem de afago para grande parte do público, além do entretenimento que é a TV na casa de quase todos brasileiros.
O novelista continuou contando o roteiro da sua profissão: “E assim fui colaborando em mais de uma dezena de novelas ao longo dos anos, até Negrão me convidar para dividir a autoria de ‘Sol Nascente’ com ele e Suzana Pires. Antes disso, já tinha encabeçado o time de autores titulares do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ juntamente com a Duca e o Alessandro Marson. Aliás, Duca, Alê e eu somos parceiros, em diferentes funções, há muuuuito tempo”.
A evolução das novelas
E para acompanhar a evolução em todos os sentidos, as novelas estão diferentes das de antigamente, Júlio falou o seu olhar sobre esse fato.
“Na minha visão, as mudanças que se veem nas novelas atuais são um testemunho do vigor essencial do gênero, da sua capacidade de atualizar suas formas narrativas no sentido de busca sempre uma sintonia maior com o público. A mudança mais marcante, me parece, é na maneira como o espectador consome a novela nesses tempos. Antigamente, o aparelho de televisão reinava absoluto na sala, com as atenções totalmente voltadas para ele. Hoje em dia, porém, a atenção do espectador muitas vezes está dividida entre a tela da TV e o celular, a rede social, o tablet, a concorrência, etc.”.
“De modo que o grande desafio da teledramaturgia de agora é manter o espectador com a atenção ligada na novela, evitando ao máximo a dispersão. Se, por um lado, essa realidade muitas vezes nos impede de escrever cenas mais longas com mais profundidade, como na obra de Gilberto Braga, por exemplo, por outro lado a agilidade narrativa exigida por nós atualmente é um desafio pra lá de estimulante. É um prazer quando a gente consegue dizer muito numa cena num tempo mais reduzido. E, o mais importante, sempre confiando na inteligência do público. Porque, no fundo, novela é um grande diálogo com o espectador. Diálogo esse que, hoje em dia, as redes sociais tornaram mais direto e imediato, nos permitindo conhecer as reações do público a cada situação, cada personagem ou trama da novela em tempo real. E isso é altamente estimulante e também desafiador, é claro”.
Júlio Fischer – Autor de novelas
O autor que trabalha atualmente muitas horas dos seus dias na nova trama que tem previsão de estreia em breve, nos revela como escrever uma novela dinâmica que atraia o público atualmente:
“Sem dúvida, o dinamismo da narrativa é um requisito essencial para cativar o espectador nos dias de hoje. Em termos práticos, isso, como já apontei, significa cenas mais curtas, mas com conteúdo sólido, consistente ,e uma variedade de núcleos e tramas em cada capítulo. E, é claro, o gancho final de cada capítulo deve ser potente. E, sempre que possível, também os ganchos de meio de capítulo, para garantir que o espectador vai voltar depois dos comerciais”.
Com sua vasta experiência completa: “Esse é o lado técnico, digamos assim, mas nenhuma ‘receita’ terá o condão de cair nas graças do público se a novela não tiver alma, isto é, não contar uma história capaz de emocionar, de cativar o público”.
“Isso porque, por mais que as novelas atuais prezem pelo dinamismo e agilidade de cada capítulo, a renovação constante de estímulos e por mais que elas abordem temas da atualidade, o autor deve estar muito atento, a meu ver, para não trair a essência do gênero telenovela, que tem a sua raiz no melodrama, no folhetim do século XIX. Porque por mais que a novela assuma roupagens modernas e possa abordar temas e modismos atuais, ela só será eficaz se falar ao coração do público, se permitir a identificação do espectador com aqueles personagens, com suas mazelas, alegrias, conquistas e aspirações”.
Júlio Fischer – Autor de novelas
“Se você for ver, as melhores novelas atuais, as que obtiveram maior engajamento do público são aquelas que mantiveram, na sua essência, o DNA do novelão, do folhetim”.
Novelas mais curtas e as verticais
Não pude deixar de pedir a opinião deles obre novelas curtas, longas e agora as verticais: “Bem, acredito que não é por acaso que as novelas longas, isto é, com mais de 100 capítulos, têm sido o padrão predominante há décadas, tanto no Brasil como em outras partes do mundo. E acredito que uma das razões para essa aceitação longeva (quando a novela é boa, é claro) é a disposição do espectador em “conviver” com aqueles personagens por um longo período, incorporando-os, de alguma forma à sua rotina diária. Essa “convivência” diária com personagens de uma ficção que nos mobiliza por meses a fio é um deleite que só uma novela longa é capaz de proporcionar”.
“Por outro lado, acho que as novelas mais curtas cumprem um papel cada vez mais importante no sentido de atender ao espectador que, com a imensa oferta de histórias oferecidas principalmente no streaming, não quer ou não pode comprometer o seu tempo e sua atenção acompanhando um grande número de capítulos. E temos visto algumas produções de grande qualidade e repercussão junto ao público nesse modelo. E a novela vertical, ao que parece, atende a um nicho importante e, ao que tudo indica, cada vez mais numeroso e acredito que é um formato com um potencial interessante, mas que ainda estamos tateando”.
Júlio Fischer – Autor de novelas
Para não deixar os noveleiros de plantão muito curiosos, Júlio falou sobre, na minha opinião, mais um sucesso seu em coautoria com a Duca e Elísio, ele deu um spoiler sobre essa nova trama das seis, qual título e o que o público pode esperar desse folhetim:
“Tomara que você tenha poderes premonitórios e a novela caia nas graças do público, Sílvio! Porque a gente nunca sabe, não é? (RISOS) A novela se chama ‘A Nobreza do Amor’, é uma trama de época (se passa na década de 1920), e é uma história com muito romance e aventura, cujo centro é uma jovem princesa africana, que é obrigada a abandonar o seu reino depois de um golpe de Estado para vir se refugiar num vilarejo do nordeste brasileiro. A direção é do Gustavo Fernández, responsável por grandes êxitos como ‘Órfãos da Terra’ e ‘Pantanal’, e temos a felicidade de ter um elenco dos sonhos para contar essa saga”.
“Estamos aquecendo os tamborins para estrear em março. Então resta ao público esperar março para acompanhar essa história que certamente os fará viajar no tempo”, encerrou.
Ah, Júlio, minha intuição não falha. E, não falha mesmo.
Fonte Na telinha